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O mesmo fascínio que me fazia procurar por ele,
tentar conhecer de perto quem fazia aquelas músicas
todas e tocava o piano daquele jeito, também me
deixava desajeitado e quase mudo.
Quando eu me encontrava com o Tom, eu era mais o espectador
do que o interlocutor. E eu queria aprender todas aquelas
harmonias, os acordes no piano, e não entendia muito
porque ele preferia conversar sobre outras coisas.
Eu via o Tom como se nele habitassem a um só tempo
a Esfinge, a Marilyn Monroe e o Cristo do Corcovado. Esta
trindade, profana e telúrica, me tirava a
naturalidade, e, como um vidro esfumaçado, não
me deixava distinguir com muita clareza o Tom, ele
mesmo.
Houve um certo tempo em que eu passei a procurar menos por
ele. Em parte porque, ocupado com meu trabalho de produtor
musical em São Paulo, as oportunidades de
encontrá-lo eram mais escassas; e mais, me ocorria
muito a imagem do bichinho voando em círculos em
torno da luz, que o atrai e onde ele acaba sendo
consumido.
Um dia, durante um desses papos que ele sabia puxar bem
melhor do que eu, falou do Stravinsky.
- Você sabe, Luiz, houve uma época em que eu
passei uns tempos em Nova York, trabalhando por lá.
Na mesma rua do hotel em que eu estava, do lado oposto,
quase em frente, morava lá o Stravinsky. É, o
Stravinsky, ali do outro lado, across the street. De vez em
quando eu estava por ali, na Lexington Avenue, e via o
Stravinsky andando pela rua. Eu até sabia qual era o
prédio em que ele morava.
- Puxa, Tom, e aí, você via sempre ele na rua
?
- Pois é, volta e meia, eu estava chegando ou saindo
do hotel, ou num bar ali ao lado, e lá estava,
andando pela outra calçada, o Stravinsky, com aquele
casaco e aquele chapéu, você sabe. Mas eu nunca
cheguei a falar com ele.
- Mas como, era só atravessar a rua... Você
nunca teve vontade de conversar com ele ?
- Tive sim. Mas ele, ali, o Stravinsky, do outro lado da
rua... E se ele estivesse pensando em alguma música,
se estivesse compondo alguma coisa ? Eu achava que
não devia interromper o maestro, desviá-lo de
seus pensamentos. E lá se ia ele...
- Mas Tom, era o Stravinsky, você devia ter falado com
ele !
Tom ficou quieto um pouco, o olhar perdido, talvez
pensando no mestre, nos bonecos da Russia, na
sagração das estações do trem de
Cordisburgo, nos pássaros de fogo da floresta
brasileira, no chapéu e no casaco, na profana
trindade across the street.
E, lentamente, como se acordasse de um sonho, me
disse:
- Pois é, Luiz, mas veja só, o que é
que eu ia dizer a ele ?
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