Quando soube da notícia da morte de Tom Jobim eu chorei mais do que,
provavelmente chorei, quando morreu meu pai.
Com a morte do Tom, morria não apenas o maior compositor do mundo,
mas um pouco de um Brasil de sabiás, praias desertas, restingas bonitas, jacarandás, jequitibás.
O Tom era uma espécie de bússola que eu carregava no peito
para me nortear sobre as agruras da vida.
Eu nunca o conheci pessoalmente, a não ser em shows, os quais eu
não perdia um. Mas tive, uma vez, a emoção de falar
com ele pelo telefone.
Certa ocasião, sem o consentimento dele, evidentemente, fiz uma letra
para a música Andorinha, que eu tinha ouvido numa gravação
instrumental.
Não só fiz a letra, como gravei uma fita cantando e com o
meu saudoso Zé Bicão me acompanhando no piano.
Teresa, na época minha amiga, hoje minha mulher, que também
fazia parte do grande fã clube do Tom, e que morava no Rio perto
da casa do maestro, na rua Codajás, se incumbiu de entregar a fita
e a letra ao Tom. Passou-se um tempo e eu recebi, através de um portador,
o papel com a minha letra e um bilhetinho do Tom que dizia - "gostei
muito da sua letra e da sua voz. Infelizmente já tenho uma letra para
Andorinha. Um grande abraço. Tom Jobim."
Quase tive um infarto.
Alguns dias depois, quando eu trabalhava numa agência de propaganda
americana, uma amiga que conhecia este fato me chamou na sala dela e me
passou o telefone. Quase tive o segundo infarto. Era o Tom falando comigo
ali, ao vivo, sobre a minha letra, sobre todas as coisas, porque quando
o Tom fala, ele fala sobre todas as coisas.
Mas, a morte do Tom me deu, por incrível que possa parecer, uma grande
alegria.
No dia em que ele morreu, Teresa estava grávida de 5 meses de um
menino. Imediatamente resolvemos dar o nome de Antônio ao nosso filho,
que já ia nascer com um apelido: Tom.
Hoje, o nosso Tom está com 11 meses, cada vez mais lindo e cheio
de graça e sempre que nos perguntam - por que Tom? - a gente responde:
foi uma maneira de mostrar a nossa admiração ao maior dos Antônios, para nós, Santo Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.
Não é preciso que o nosso Tom seja tão iluminado quanto
o seu patrono, mas tomara que ele possa receber bons fluidos do maestro
para ser também um Antônio, brasileiro de bem.
|