Jobim e a Alma Humana

Sergio Graciotti

setembro.1996



Sempre na minha vida, como bom virginiano, houve a paixão pelo detalhe. Ao estudar música com o encantado mestre Isaias Savio, aprendi o respeito pela perfeição do detalhe como meio de alcançar o virtuosismo no violão, instrumento com o qual eu pretendia ser concertista. Intrincados exercícios de velocidade com dedilhados que levavam as extremidades dos membros superiores a transcender as funções ordinárias primatas da mão-de-dedos e representar mais uma aranha com cãibras do que um meio de tanger as cordas. Quem vê, não ouve direito porque presta atenção à ginástica olímpica feita com os dedos, e quem ouve não sabe como se superam os limites da anatomia. Com o violão ou com o piano. Tudo para soar simples e claro.

Avistei pessoalmente Antônio Carlos Jobim por intermédio de um amigo do Rio. Eu estava escrevendo um livro, operação que ainda não retomei, claro, sobre criatividade. E queria devorar a dele. O ímpeto e a voracidade com que me precipitei sobre elecomo um coordenador de campanhas políticas, tentando arrancar em pouco tempo tudo que eu achava que era importante para aprender, incorporar, entronizar, com esse canibalismo intelectual que o ser humano traz como resquício da noite dos tempos, não abalaram, em absoluto, o sábio.

Mas a sabedoria é feita de paradoxos. A simplicidade é o resultado sublime da complexidade. É um serviço que se presta a outro ser, dando a ele o que ele pediu, sem colocar um preço nem pedir algo em troca.

Tom Jobim respondeu me olhando no vazio, daquele jeito quando se fala ao telefone. E talvez nunca mais tenha se lembrado de mim. Não faz mal, eu passei por sua vida, fiquei registrado numa sinapse qualquer da sua alma.

Aprendi muito. Quer dizer, ele me fez aprender muita coisa sobre mim mesmo, sem ter dito nenhuma palavra a meu respeito, entendeu? Uma das coisas que aprendi é que o virtuosismo é um estado alterado, não a mera acrobacia. E também que a paciência é um dom divino.

Quem expunha uma idéia ou tocava piano ou violão como ele fazia, e compunha esperando até chegar a frase certa, estava on-line com o nosso órgão da sabedoria, o coração. Sem ginásticas nem espasmos. Simples e claro.


Sergio Graciotti é publicitario e ex-diretor da TBWA Graciotti Propaganda.
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