O Tio do Tom

Franco Paulino



Era início dos anos 70. Na MPM Propaganda, então a maior agência do Brasil. A Caixa Econômica Federal havia aprovado um anúncio, dizendo ao público que ela era a única organização a oferecer (além de bom atendimento, agilidade, tecnologia), "o aval do nosso avô". O elemento preponderante, na peça, era um clôse do tal avô.

Precisava ser um homem bonito, atraente charmoso, insinuante e já passado dos 60 anos.

Só depois de recusar vários modelos fotográficos, me bateu o estalo: aquele personagem que procurávamos tanto - figura bonita, beleza marcante, um avô inesquecível - estava ao meu lado todas as noites num barzinho do Leblon, o Degrau. Seu nome: Marcelo Brasileiro de Almeida. Alto, forte, elegante, delicado, envolvente, um dos poucos boêmios que ainda usava colete e gravata borboleta.

Marcavam ponto naquela alegre mesa do Degrau, entre outros, o baiano Guci (vendedor de carros), o respeitado treinador de cavalos Gonçalino Feijó, o saudoso pianista Raul Mascarenhas, o economista Roniquito, o poeta Paulo Mendes Campos e os compositores Paulo Soledade, Luis Reis, Luis Antônio e Braguinha (o genial João de Barro, ainda vivo para enriquecer esta história).

Ria-se e bebia-se muito, sobretudo quando chegava na roda, pelo menos noite-sim-noite-não, um dos grandes compositores do mundo neste século, o maestro Antônio Carlos Jobim.

Ele não costumava se demorar conosco, mas trazia sempre uma história engraçada e fazia sempre as mesmas coisas: antes de sentar-se tomava a benção do Marcelo e antes de sair beijava no rosto o Marcelo. Nas madrugadas ruidosas e machistas do Degrau, a galera nunca digeria a cena com naturalidade: aqueles dois homenzarrões bonitos trocando beijinhos.

Mas a nossa mesa sempre via com naturalidade o amor respeitoso que uniu, a vida inteira Antônio Carlos Jobim e seu tio Marcelo. Agora entendo, ao ler a biografia apaixonada do Tom, escrita por sua irmã Helena, que foi Marcelo o maior incentivador da vocação artística do Tom. O mundo tem essa dívida com ele.

Antes que a saudade me sufoque, concluo lembrando que o Marcelo deu uma grande mão-de-obra à maquiladora, na sua primeira e única experiência como modelo. Ele precisou ser muito envelhecido para esconder os traços fortes de juventude e aparentar sua verdadeira idade.

Era assim o tio querido do Tom Jobim.

Rio, 7.janeiro.97



Franco Paulino é publicitário e jornalista.

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