Ana Paula Barros de Ávila
19.novembro.96



Luiz:

Como já havia escrito antes para o Paulo Jobim, o Tom foi uma coisa muito forte na minha vida, principalmente na minha adolescência. As garotas da minha idade gostavam de rock americano, U2, Boy George, e no Brasil os grupos de rock que estavam começando, como a Blitz. O ídolo de beleza era Harrison Ford, Fábio Júnior e outros garotinhos que apareciam em sucesso temporário.

Eu era APAIXONADA por Tom Jobim. Tinha tudo que pudesse encontrar sobre ele. Recortes de jornais, todos os discos, estudava tudo sobre o Tom, tinha-o como o ídolo supremo de todos os ídolos. As minhas amigas me achavam meio excêntrica. Oras, ser fã de carteirinha de um cara que tem cinquenta e tantos anos!

Mas Tom Jobim era tudo o que me interessava e naquele agosto de 1988 na bienal do livro de São Paulo o gênio maior estaria autografando livros. Fiquei sabendo da ilustre presença na Bienal pela manhã e passei toda a tarde me arrumando para parecer bem ao ídolo.

De mãos trêmulas aproximei-me dele para que autografasse um livro muito bonito de fotografias feitas por Ana, sua esposa, com texto dele. Aquela figura que era para parecer lendária e distante me deu um sorriso amigo, mostrei a ele toda a minha coleção de fotos, discos, recortes de jornais e ele me puxou para o canto para ficar perto dele, de Ana, e do filho João Francisco. Tom e João pareciam da mesma idade. Rindo muito, conversavam como duas crianças. Tom fazia brincadeiras com seu filho, às quais o menino replicava com gargalhadas gostosas. Ana repreendia aos dois a todo momento: "Tom e João parem com isso, fiquem quietos."

Perguntei a João se gostava de morar em Nova Iorque, ele me respondeu que sim, de seu apartamento podia ver o Central Park e era muito gostoso. Perguntei se não sentia saudades do Rio e ele me disse que sim, mas ficava triste de ver as praias poluídas. Observação interessante para um garoto de 8 anos. Seria de quem a influência daquela preocupação ecológica?

Entre um autógrafo e outro em pedacinhos de papel amassado que garotos colegiais lhe apresentavam, mostrou suas habilidades, suas proezas de ambidestro. Escrevia uma palavra com a mão direita, logo outra com a esquerda. Escrevia seu nome e o de João de trás para frente. Uma alegria infantil!

Corrigiu a data de nascimento de João Francisco numa biografia escrita por Sérgio Cabral que eu tinha, e comentou que se tivesse os olhos azuis de Helena seria astro de Hollywood. Foram duas horas com o mestre. Aquele gênio que parecia um menino acuado em uma bienal do livro.

Não tinha nem um uisquinho? Mas não o vi reclamar de ficar dando milhares de autógrafos, fotos, entrevistas... No final chegaram Jorge Amado e Zélia Gathai, que estavam autografando naquele mesmo dia e todos os cinco foram embora. Antes o Gênio me beijou a testa e eu fiquei enlevada com tanta simplicidade, que só tem quem é um ser superior!

Vi meu ídolo somente em shows outras vezes, mas ouço-o e estudo-o com uma frequência escolar desde os 13 anos de idade. Realmente foi um ídolo muito diferente para a minha idade, mas com toda certeza o mais genial de todos. Não poderia eu ter aprendido tanto com outro ídolo. Costumava contar na escola tudo o que eu tinha decorado a respeito de Tom. Minhas colegas me achavam mais estranha ainda.

Sonhava com Tom. Todo mundo sabia da minha paixão pôr ele: meus pais e irmãos eram bastante influenciados por minha idolatria. Tanto que ele é preferência unânime em uma casa de jovens com vinte e poucos anos. Quando se falava em Tom Jobim, todos que me conheciam logo se lembravam de mim. Vinham me perguntar coisas que queriam saber sobre ele e a Bossa Nova. Eu era uma espécie de ligação entre aquela juventude envolta em rock'n roll e a verdadeira e mais pura música brasileira.

Quando ele se foi eu estava grávida .Todos os meus amigos me ligaram para perguntar como eu estava passando depois daquela triste notícia, porque sabiam o quanto o ídolo significava para mim. Eu ouvi a notícia na televisão com lágrimas escorrendo pelo rosto.

É, o Tom se foi, mas a sua obra memorável estará sempre fazendo a nossa História e pessoas como você, Luiz, estarão contribuindo para divulgar lindamente a obra do grande gênio da música mundial no século XX.


 

Ana Paula é arquiteta e mora em Brasília.


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