entrevistado por
Luiz Roberto Oliveira



CAPÍTULO II



Um intruso na minha aula

LR - Carlinhos, como foi que você conheceu o Tom ?
CL - O João Gilberto é que foi o elo de ligação entre nós.
LR - Eu me lembro que um dia eu estava tendo aula de violão com você e entrou um cara que ficou ali batendo papo, sem a menor cerimônia, e atrapalhou a minha aula. Só que quando ele saiu, você chegou pra mim e falou: "Esse cara ainda vai dar o que falar, o nome dele é João Gilberto."
CL - Exatamente, era uma época em que ele não era conhecido ainda, deve ter sido entre 1956 e 57.
LR - Ele entrou lá de terno escuro, todo alegrinho, dizendo que ia gravar, naquele dia, o acompanhamento de "Ouça" para um disco da Maísa, e tocou o "Ouça" em dó maior. Me lembro dele, lá no seu apartamento em Copacabana, todo animado.
CL - É, porque o João Gilberto era assim, ele não tinha onde morar, às vezes. Então, ele ia lá pra casa, assoviava "Maria Ninguém", que ele aprendeu em 1956, no Bar do Plaza comigo. Minha mãe colocava ele pra dentro, dava chá, colocava um pijama meu nele, botava um colchão do lado da minha cama e quando eu chegava, já encontrava o João Gilberto na minha casa. Era o grande promotor das minhas músicas.
LR - E ele morava salteado.
CL - É, um dia na minha casa, outro dia na casa do Luís Telles, na casa do Quitandinha Serenaders, porque ele não tinha condições e nesse tempo ainda não tinha aparecido Ronaldo (Boscoli), nem Nara (Leão).


ô Charles


LR - E o Tom, como é que entrou nessa ?
CL - Foi mais ou menos em 1955, quando a Silvinha (Telles) gravou com ele um single, um setenta e oito rotações. De um lado "Foi a noite" de Tom e Newton Mendonça e do outro lado "Menina".
A fábrica era Odeon e um dia, quando eu estou em casa, de noite, o João Gilberto me ligou e disse: "ô Charles, tem uma pessoa aqui que quer falar com você" e passou o telefone para o outro: "Alô, Carlinhos, aqui é o Tom Jobim, eu sou o outro lado do disco. Olha, a sua música é linda, adorei, um beijo pra você !"
Naquela época não se costumava dizer isso , "...um beijo pra você"... em l955, isso era bem avançado e eu fiquei perplexo. Depois disso, a gente começou a se aproximar e nessa época o João me chamou para ir até a casa do Tom. Ele morava na Barão da Torre e lá estava o Tom, passando as músicas para o João Gilberto.

Aliás, eu fui na casa do Tom, quando ele ainda morava na Nascimento Silva, quando ele me chamou uma vez. Ele me ligou e disse para eu ir até a casa dele, porque o Agostinho dos Santos iria até lá para pegar músicas para gravar, o Tom disse que ele cantava bem pra caramba, para eu mostrar músicas para ele, que ele ia fazer um disco, com arranjo do Luiz Arruda Paes.
E o Agostinho era engraçado, ficava alí em pé, em posição de lutador de boxe, de terno e gravata...
LR - Ele era fortinho, tinha um peito assim pra fora, forte pra xuxu...
CL - Ele queria ser moderno de qualquer maneira, queria cantar só coisas novas. Procurou todo mundo e foi para o "Carnegie Hall", fazer "Manhã de Carnaval", em 1962, cantou e apareceu fazendo a voz do Orfeu, no filme Orfeu do Carnaval, do Vinícius e do Tom.
Então, o Tom me chamou, teve aquela generosidade de chamar para mostrar as músicas - ele podia ter ficado quieto, mas não.


Engolindo sapos


CL - Mais tarde o Tom começou a ficar muito defendido, muito medroso, aquele negócio do Capricórnio baixou mesmo, de ficar preocupado com o que ia acontecer, ele ficou assim com todo mundo. Também, depois do golpe de 1964, as pessoas que estavam sempre juntas, elas se separaram, foi um para cada lado, cada um foi parar num canto.
As pessoas ficaram desconfiadas, porque você não sabia mais quem era ninguém, estava todo mundo correndo atrás da grana e fazendo qualquer papel para melhorar o seu lado e o resto que se danasse. Então, o Tom ficou um pouco assustado, porque fizeram poucas e boas com ele.
E uma vez, no lançamento de um disco do Caetano, o Tom estava lá, ao vivo e a cores tocando piano, e durante um papo no microfone, ele disse: "Pois é, esse negócio de fazer sucesso, eu fiz, mas eu tive que engolir muitos sapos, inclusive do João Gilberto."
O Tom e o João são dois super talentos. O João é uma pessoa difícil, mas apesar de todas as besteiras dele, eu me divirto muito, eu tenho muito carinho por ele.

LR - E você, hoje em dia, ainda vê o João?
CL - Não, o João não vê ninguém, ele só chama o Almir (Chediak), como chamou: "Vem cá, eu quero falar com você." O Almir foi lá e ele deu o violão para o Almir afinar, e mandou ele embora. (risadas)
Eu acho que ele já faz isso, porque ele sabe que é mercado, é marketing. Ele perdeu o direito de ser um ser humano, ele ficou com aquele mito da lenda e agora ele não pode, ele virou a imagem que ele fazia, que não é dele, ele puxou aquela imagem.


No próximo capítulo:
A Universidade de Carlos Lyra


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